Disputa política alimenta falsa divisão entre católicos e evangélicos
A divulgação de vídeos nas redes sociais que associam episódios de intolerância religiosa a disputas políticas atuais t...
A divulgação de vídeos nas redes sociais que associam episódios de intolerância religiosa a disputas políticas atuais tem provocado discussões sobre uma suposta guerra entre católicos e evangélicos no Brasil.
A narrativa vem ganhando força durante o período eleitoral, especialmente após a circulação de informações comprovadamente falsas envolvendo Nossa Senhora Aparecida, padroeira do país.
Um dos conteúdos mais recentes foi publicado na segunda-feira (12), com a participação da cantora e ex-BBB Juliette Freire.
Ver esse post no Instagram
No vídeo de aproximadamente 22 minutos, intitulado “A guerra à santa”, ela aborda episódios de intolerância religiosa e relaciona declarações de líderes evangélicos a disputas pelo poder político.
Em determinado momento, Juliette afirma que há católicos com medo e sustenta que a intolerância religiosa foi alimentada por pessoas poderosas interessadas em dividir a população utilizando a fé.
Ao transformar episódios envolvendo determinados religiosos em evidência de um conflito generalizado entre duas comunidades cristãs, essa narrativa visa claramente alimentar a divisão entre católicos e evangélicos, especialmente em meio a uma disputa eleitoral.
Líderes evangélicos rejeitam suposta guerra religiosa
Em 28 de setembro, o Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb) divulgou uma manifestação pública contra a circulação de informações falsas relacionadas à padroeira do Brasil.
A entidade, que reúne aproximadamente 10 mil pastores, rejeitou a ideia de uma mobilização evangélica para retirar direitos ou símbolos religiosos dos católicos.
Ver esse post no Instagram
A nota foi assinada por 14 lideranças, entre elas o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Teo Hayashi, da Zion Church, e Luiz Hermínio, do Mevam.
No documento, o conselho afirma que não há iniciativas de lideranças evangélicas vinculadas a candidaturas para acabar com feriados ou celebrações de outras religiões.
Um exemplo de convivência e respeito entre as duas comunidades cristãs aconteceu neste domingo (12), em Aparecida (SP), durante as celebrações do Dia de Nossa Senhora Aparecida.
Há 21 anos, a Igreja Evangélica Vida Nova de Aparecida realiza um trabalho de acolhimento aos romeiros católicos que chegam à cidade.
Neste ano, desde as 4h da madrugada, voluntários da igreja já estavam preparados em tendas para receber os peregrinos, oferecendo gratuitamente água, café, sucos, frutas, lanches, massagens e atendimento de enfermagem para aliviar o cansaço da caminhada.
Ver esse post no Instagram
Todos os anos, o trabalho social da igreja atende centenas de romeiros.
“Nosso intuito hoje aqui é espalhar o amor de Cristo através desse cuidado”, afirmou um dos participantes da ação.
“Louvo e agradeço a Deus por todos os jovens e por todos que têm trabalhado, contribuído e ajudado na realização deste trabalho. Deus abençoe a todos vocês. Muito obrigado por tudo”, disse o pastor Paulo Torres, líder da igreja.
A iniciativa mostra, na prática, que diferenças doutrinárias não impedem a solidariedade entre católicos e evangélicos, contrariando a ideia de uma guerra religiosa generalizada entre os dois grupos.
Projeto arquivado foi utilizado para espalhar informação falsa
A polêmica ganhou força após a circulação de publicações que afirmavam que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
A origem da controvérsia foi o Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli, que pretendia alterar a denominação de padroeira do Brasil para padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos.
E em 24 de setembro, uma informação apresentada por jornalista na GloboNews sobre uma suposta mobilização de evangélicos para alterar a condição de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil viralizou nas redes sociais.
Horas depois, a própria GloboNews reconheceu o erro e fez uma correção pública durante a edição da meia-noite. A emissora esclareceu que a proposta mencionada não era atual e pediu desculpas.
Católicos e evangélicos defendem liberdade religiosa
A convivência entre católicos e evangélicos também é marcada por iniciativas conjuntas de defesa da liberdade religiosa.
Em setembro de 2021, lideranças das duas tradições assinaram uma declaração ecumênica no Rio de Janeiro, com a participação do cardeal Orani João Tempesta, arcebispo do Rio, e representantes da Missão Somos Um.
Na ocasião, o cardeal destacou a importância de manter o diálogo e construir caminhos de unidade entre os cristãos, conforme repercutiu o Vatican News.
“A busca da unidade é constante entre nós, que temos preocupações comuns de vida e caminhada. Sabemos que a unidade é um dom do Senhor, mas precisamos ter disposição para fazer, de sentar juntos, de partilhar. É preciso acrescentar – com a assinatura dessa declaração conjunta em busca da unidade –, o que foi feito no passado, mas dar passos para que nossa unidade continue abrindo caminhos para o futuro”, disse o arcebispo do Rio, Cardeal Orani João Tempesta, que tem como lema episcopal “Que todos sejam um” (Jo 17, 21).
A iniciativa reuniu representantes de diferentes igrejas em defesa do direito de cada pessoa professar sua fé sem sofrer discriminação.
Mais recentemente, durante as celebrações de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro de 2026, o arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva, também defendeu a paz e o respeito às diferenças, advertindo contra o uso da religião para alimentar divisões políticas.
Segundo a Folha de S.Paulo, em sua homilia, o religioso ressaltou que o Evangelho não autoriza o ódio nem a violência contra aqueles que pensam de maneira diferente.